Hepatite em Portugal

As hepatites víricas são uma importante causa de doença e morte em Portugal e no resto do mundo, mas podem ser prevenidas e tratadas. Conhecer a magnitude destas infeções é fundamental para uma resposta adequada.1

Hepatite A

O número de casos de hepatite A em Portugal, diminuiu de forma consistente nas últimas décadas, devido essencialmente à melhoria das condições socio-sanitárias, nomeadamente saneamento básico, higiene alimentar e pessoal, e educação para a saúde.1

O primeiro estudo de seroprevalência de hepatite A em Portugal data de 1983, tendo revelado que, no grupo etário dos 20-30 anos, 97% dos indivíduos tinham anticorpo contra o vírus da hepatite A (anti-VHA).2 Em 1996, numa população urbana, a taxa de anticorpo no grupo etário dos 20-24 anos foi de 64%.3 Cerca de 17 anos depois da primeira avaliação, um estudo que incluiu 325 profissionais hospitalares com idade média de 40 anos e 201 estudantes de Medicina, com idade média de 21 anos, mostrou que a prevalência de anti-VHA era, respetivamente, de 86% e 35%.3

Em 2017, verificou-se um aumento no número de casos confirmados de hepatite A, alguns referentes ao ano de 2016. Nos meses seguintes, viria a confirmar-se a existência de um surto, que ocorreu em 22 países da União Europeia (eu)/Espaço Económico Europeu, incluindo Portugal, totalizando 4 475 casos, entre 1 de junho de 2016 e 7 de setembro de 2018, atingindo maioritariamente homens que tinham sexo com homens (HSH).4

Em Portugal, este surto teve as mesmas características epidemiológicas, e viriam a ser notificados, em 2017 e 2018, 560 e 83 casos, respetivamente. A grande maioria dos casos (66,7%) verificou-se na região de Lisboa e Vale do Tejo e o grupo etário mais afetado foi o dos 18-39 anos (66,4%).1

Desde então tem-se verificado um decréscimo progressivo do número de novos casos notificados, sendo a atual expressão da doença semelhante à existente previamente a este surto.1

Hepatite B

Os dados de 2017 do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) dão conta que o número de novas infeções pelo vírus da hepatite B diagnosticadas e notificadas em 30 países da Europa, incluindo Portugal, continua elevado, sendo a maioria infeções crónicas (58%). Foram notificados 26 907 casos de infeção pelo vírus da hepatite B (VHB), correspondendo a uma taxa bruta de 6,7 casos por 100 000 habitantes.5

A taxa mais alta de infeções agudas foi observada entre os 35-44 anos de idade, sendo que para as infeções crónicas, a maior taxa verificou-se entre os 25 e os 34 anos de idade. A proporção geral entre homens e mulheres foi de 1,6.5

 Contudo, a taxa de casos agudos continua a diminuir, o que está de acordo com as tendências globais e reflete o impacto dos programas nacionais de vacinação.5

Em 2018, foram notificados 174 casos de infeção pelo vírus da hepatite B em Portugal, sendo 84 casos crónicos, 34 agudos e 56 desconhecidos. A maioria dos casos verificou‑se em pessoas do género masculino, com idades superiores a 37 anos. A forma provável de transmissão, conhecida em 43% dos casos, foi maioritariamente por transmissão sexual (64%).1

Em Portugal, a implementação da vacinação universal contra a hepatite B ocorreu em 1994, inicialmente para os adolescentes entre os 11 a 13 anos de idade. A partir de 2000 passou a ser administrada a todos os recém-nascidos, com o esquema de administração de 3 doses: a primeira logo após o nascimento, ainda na maternidade/hospital, a segunda aos 2 meses de idade e a terceira aos 6 meses de idade.6

A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que a primeira dose de vacina contra o vírus da hepatite B seja administrada o mais precocemente após o nascimento, preferencialmente dentro de 24 horas.7

Hepatite C

Em números, a hepatite C representa 71 milhões de pessoas infetadas em todo o mundo.8 Em 2017 foram reportados 31 273 novos casos de hepatite C (3% classificados como agudos, 22% como crónicos e 75% com desconhecidos) em 29 países Europeus.9

Em 2018, foram notificados 269 casos de infeção por VHC em Portugal, sendo 148 casos crónicos, 11 agudos e 110 desconhecidos. A maioria dos casos verificou-se em pessoas do sexo masculino e com idades entre os 40 e 59 anos (62,4%). A forma provável de transmissão é conhecida em 65% dos casos e maioritariamente associada a exposição não ocupacional a sangue ou materiais contaminados (85%).1

Em Portugal, no ano de 2019, estimou-se que 45 000 portugueses estariam cronicamente infetados pelo vírus da hepatite C. A maioria das novas infeções nos últimos 25 anos ocorreram em pessoas que utilizam drogas por via injetável, sendo estimadas 390 novas infeções por ano.10

Hepatite D

Em Portugal é considerada uma situação rara, não existindo dados atualizados para esta infeção, a qual não integra a lista de doenças de notificação obrigatória.1 Estima-se que a hepatite D afete cerca de 12 milhões de pessoas no mundo, sendo a prevalência da doença maior em determinadas zonas geográficas.11

O primeiro estudo epidemiológico em Portugal foi realizado em 1984, num grupo de 100 doentes, predominantemente portadores inativos do vírus, sendo a prevalência da infeção delta (hepatite D) de 2%.12 Num trabalho posterior, numa população de 85 doentes, maioritariamente com hepatite B crónica, a prevalência encontrada foi de 10,6%.13

A vacina da hepatite B protege contra o vírus da hepatite delta. O vírus da hepatite D (VHD), ao ser um vírus defetivo, depende da presença do VHB para infetar uma pessoa.1,11

Hepatite E

A OMS estima que, anualmente, ocorram 20 milhões de infeções pelo vírus da hepatite E em todo o mundo, originando cerca de 3,3 milhões de casos sintomáticos, tendo sido responsável por aproximadamente 44.000 mortes em 2015 (o que representa 3,3% da mortalidade por hepatites víricas).14

Inicialmente pensava-se que os casos de hepatite E se limitavam a determinadas regiões geográficas, mas o conhecimento atual permite-nos afirmar que um tipo de vírus da hepatite E é endémico mesmo em países industrializados, assistindo-se a um aumento do número de casos com origem nesses países, onde é uma infeção zoonótica (isto é, transmitida por uma espécie animal) na larga maioria das situações.1

Em 2017 e 2018, foram notificados, respetivamente, 16 e 15 casos confirmados de hepatite E em Portugal. Os casos notificados desde 2015 são pouco expressivos (2015 – 1 caso; 2016 – 2 casos).1 A real prevalência da infeção pode estar subestimada devido à reduzida sensibilidade dos testes serológicos e, provavelmente, por não ter sido realizado o teste de diagnóstico (ARN-VHE) adequado nos casos de hepatite E crónica.15

1. DGS. Programa Nacional Para As Hepatites Virais. Lisboa, julho 2019. Disponível em: https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/programa-nacional-para-as-hepatites-virais-2019.aspx. Consultado em: maio de 2020.
2. Lecour H. Hepatite vírica: epidemiologia e diagnóstico. Tese de doutoramento, Universidade do Porto 1983.
3. Marinho R, Valente A, Ramalho, F, Moura MC. Hepatite A: alteração do padrão epidemiológico? Rev Port Clin Geral 2000; 16:103-111.
4. European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). Epidemiological update: Hepatitis A outbreak in the EU/EEA mostly affecting men who have sex with men. Disponivel em: https://www.ecdc.europa.eu/en/news-events/epidemiological-update-hepatitis-outbreak-eueea-mostly-affecting-men-who-have-sex-men-2. Consultado em: Maio de 2020.
5. European Centre for Disease Prevention and Control. Hepatitis B. In: ECDC. Annual epidemiological report for 2017. Stockholm: ECDC; 2019. Stockholm, June 2019.
6. Direção Geral da Saúde (DGS). Programa Nacional de Vacinação 2017. Disponível em: https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/programa-nacional-de-vacinacao-2017.aspx. Consultado em: Maio de 2020.
7. World Health Organization. Immunization, Vaccines and Biologicals. Disponível em: https://www.who.int/immunization/diseases/hepatitisB/en/. Consultado em junho de 2020.
8. World Health Organization. Hepatitis C. Disponível em: https://www.who.int/newsroom/factsheets/detail/hepatitis-c. Consultado em junho de 2020.
9. European Centre for Disease Prevention and Control. Hepatitis C – Annual Epidemiological Report for 2017. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/hepatitis-c-annual-epidemiological-report-2017. Consultado em junho de 2020.
10. Calinas et al., Eliminating Hepatitis C in Portugal: Treatment and Diagnosis Requirements for Two Timelines, APPSP, 2019
11. Stockdale J, et al. The global prevalence of hepatitis D virus infection: systematic review and meta-analysis. J Hepatol 2020 doi.org/10.1016/j.jhep.2020.04.008.
12. Moura MC, Ramalho F, Velosa. Prevalência do anticorpo delta na infecção aguda e crónica pelo vírus da hepatite B na área de Lisboa. J Médico 1984:145-149.
13. Ramalho F, Velosa J, Moura MC. Infecção com agente delta (δ) na doença hepática crónica e carcinoma hepatocelular. J Médico 1985:405-409.
14. World Health Organization. Global hepatitis report, 2017. Disponível em: https://www.who.int/hepatitis/publications/global-hepatitis-report2017/en/. Consultado em: Maio de 2020.
15. European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on hepatitis E virus infection. J Hepatol 2018;68:1256-1271.